domingo, 13 de janeiro de 2008

Festa de casamento

Jaqueline Negreiros

Não existe nada mais triste ultimamente para quem se casa do que fazer uma festa de casamento. A festa termina por ser somente para os convidados, porque para os recém casados é quase um teatro. Depois do esperado e desejado “ sim”, começa o martírio. O fotógrafo praticamente comanda o espetáculo. As noivas são obrigadas a fazer poses em árvores e os noivos perdem toda a festa obedecendo aos comandos dos fotógrafos. Quanto mais convidados se tem na festa, mais fotos você vai tirar, com certeza é algo para se pensar.Parte da culpa também é da equipe de filmagem que quer pegar a todo custo as melhores cenas da festa, nem que para isso precisem passar a festa inteira com a câmera no rosto dos noivos, da vontade de gritar.Quando se percebe os noivos estão esperando a equipe de filmagem e os fotógrafos indicarem o que fazer. Acaba totalmente a espontaneidade. Quando eles mandam cortar o bolo, os noivos cortam, dançar a valsa, os noivos dançam, fazer aquele brinde cruzado que é totalmente infeliz, os noivos fazem. Os noivos acabam perdendo toda a festa para concluir a encenação. De recordação fica só o "trauma" do dia "inesquecível".
E o AMOR??? Onde ele fica registrado??? Cadê os momentos de descontração, a troca de olhar apaixonado, o beijo "roubado", a alegria da comemoração entre amigos? Tudo se perde em meio à tanto formalismo... o brilho é somente das luzes e não dos olhares...
Sinceramente, nos perdemos do significado do casamento.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Poema em Linha Reta

Álvaro de Campos

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Estou farta de semideuses!!!

Rosa de Hiroshima

Ney Matogrosso
Composição: Vinícius de Moraes / Gerson Conrad



Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada


Prova máxima da ignorância humana!

Mãe, de onde eu vim?

Mesmo antes de ser mãe já me preparava para certas situações que pudessem me trazer constrangimento durante o processo de educação dos meus futuros filhos. Atenta às reclamações e dificuldades que algumas de minhas amigas, já mães, tinham em responder à famosa pergunta pueril: -"Mãe, de onde eu vim? Como fui parar aí? Como saí?" - Construía mentalmente hipóteses e mais hipóteses de esclarecimento para que jamais me encontrasse em tal situação evitando tanto traumas futuros para meus filhos quanto um eterno sentimento de culpa por minha parte.
Após devorar vários livros em busca de auxílio para a elaboração da "resposta perfeita" me dei por satisfeita quando cheguei à conclusão de que quanto mais natural, científica e concisa ela fosse menor seriam as consequências. Pronto! Resolvida a questão...
Meu primeiro filho nasceu e, para meu alívio, foi parto cesárea (não que eu tivesse programado) Já me imaginava com a resposta na ponta da língua: -"Você nasceu da minha barriga por esse corte bem aqui, ó!" e toda orgulhosa de mim...
O primeiro ano se passou... o segundo... o terceiro...e nada das famosas perguntas (menos mal - pensava comigo - quanto maior ele estiver mais fácil será explicar)... Chega o quarto ano... e de repente eis que surge os primeiros indícios da pergunta que não quer calar. Meu filho me rodeia, fica sentado perto de mim um tempão só me olhando, com cara de quem está com uma "baita" dúvida... eu esboço, temerosa, uma frase de incentivo..."Quer alguma coisa filhinho?"...então, tomado pela coragem me diz:
- "Mamãe, se o planeta é uma bola por que a gente anda nele e não cai???"
(Jaqueline Negreiros)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O apego

O apego está relacionado ao agarrar-se. Agarrar algo é um ato superficial, não existencial. Todos nós somos apegados à alguma coisa, entretanto sabemos o quanto sofremos quando temos que abrir mão daquilo que estamos apegados. Saiba que o apego limita nossos verdadeiros desejos. Quando estamos apegados somos mesquinhos e egoístas e não estamos seguindo o fluxo da natureza.
A natureza é desapegada. Por exemplo, quando um pássaro bota um ovo, a mãe está presente até o momento em que seu filhote nasce, cresce e fica forte. Depois, o pequeno pássaro vai buscar o seu próprio caminho. A mãe não se apega ao filhote que agora já é um adulto.
Existem diversas formas de apego as quais podemos renunciar. Faça uma reflexão interna e perceba qual apego que existe hoje em sua vida e qual você já está disposto a deixar fluir:
Tipos de Apego
Apego ao ego: está relacionado a idéias e pensamentos fixos, sendo que pessoas apegadas ao ego são menos compreensíveis e mais preconceituosas. Atividades junto a natureza propiciam uma quietude interna, onde observamos menos conflitos de egos. Por exemplo, se imagine em uma caminhada na trilha de uma floresta com outras pessoas. Geralmente, as pessoas estão mais interessadas nas paisagens, no clima, nos animais que poderão surgir, sentindo e curtindo o que a natureza tem de bom. Um outro exemplo acontece nos retiros espirituais: exigimos menos e somos exigidos menos também, portanto não há nada que precisa ser provado. Na vida cotidiana estamos sempre pensando em termos de "meu espaço", "meu tempo", "meu trabalho", "meus objetos", "meus amigos". Quando largamos tudo isso, podemos assim permitir que outros entrem em nossas vidas tornando-se mais próximos de nós mesmos.
Apego à opiniões estreitas: ocorre quando o indivíduo está apegado à concepções que não funcionam. Pode ocorrer também quando a pessoa estabelece uma opinião fixa em relação à vida de outra pessoa. Por exemplo: quando o pai ou mãe exige que a sua filha siga uma carreira escolhida por um deles. Essas pessoas costumam projetar os seus desejos e opiniões em cima das outras pessoas, sendo que a última palavra deverá ser a dela, tornando a situação desagradável. Uma solução seria usar uma percepção meditativa, sem julgamentos, para abrir nossas mentes e fluir com as idéias - em vez de se fixar nelas.
Apego ao princípio do prazer e da dor: podemos perceber esse apego em pessoas dependentes de bebidas, chocolates, vícios, romances que nunca dão certo, família etc. Para exemplificar este tipo de apego imaginem a seguinte cena: uma mulher é questionada se é feliz no casamento e dá a seguinte resposta: "Eu acho que sim, apesar do meu marido bater em mim e no meus filhos, ele é trabalhador, não deixa faltar nada em casa. Enfim, nunca parei para pensar nisso, estamos juntos há tanto tempo. Acho que acostumei com isso, não me vejo sem ele." Esse é um caso fictício, porém típico de apego ao sofrimento. Ficamos tão presos as rotinas familiares de relacionamentos dolorosos que nem sabemos mais como soltá-las e caminhar em outra direção mesmo quando fica evidente que isto é o que nos convém.
Apego à ritos e rituais vazios: ocorre quando as pessoas se agarram a dogmas vazios o tempo todo, não sendo capazes de abrirem suas mentes e pensar por si mesmos porque acreditam em alguma coisa simplesmente porque foi dito por alguma autoridade ou porque está escrito em um livro.
Apego à visão limitada e míope que só é capaz de enxergar a partir de um único ponto de vista: quando expandimos nossa auto-percepção, passamos a ver, ouvir e sentir a partir de um outro ponto de vista, mais amplo. Podemos sentir a fragrància divina ou intuirmos uma presença impalpável, porém autêntica. Ao nos sentirmos compelidos a aprender e amar, precisamos olhar com mais profundidade para as complexidades de nossas experiências, com todos os seus diversos níveis interligados, dimensões variadas e múltiplas formas de existência.

"A imagem exterior do homem e as circunstâncias que o rodeiam são o resultado de sua auto-imagem." (Samuel Aun weor)

Extraído do site "Despertar da Mente"

Sonho ou realidade?

"Dentro de cada um de nós há um outro que não conhecemos. Ele fala conosco por meio dos sonhos."
(Carl Jung)

Os sonhos são expressão do nosso inconsciente, o qual se relaciona conosco através de símbolos, imagens, parábolas ou criando histórias. Através desse contato, de forma simbólica e numa linguagem própria, revela questões de nossa personalidade que precisam ser trabalhadas, nos encaminhando na importante tarefa de individuação. Oferece autoconhecimento capaz de gerar a expansão da nossa consciência e com isso nos transformar para que possamos atingir todo o nosso potencial.
Tudo com que sonhamos faz parte da realidade da nossa vida interna, que tem intenção definida e uma compreensão que transcende a nossa consciência.
Os sonhos podem se apresentar em diferentes níveis. Muitos são comuns, refletem o nosso dia-a-dia. A eles cabem a tarefa de nos ajudar a viver mais conscientemente, a ficar mais centrados diante das nossas lutas, já que nos fazem refletir sobre a vida.
Há outros que parecem ter uma energia especial, uma vez que nos levam a participar de outra realidade, que transcende a pessoal; são sonhos que provêm do inconsciente coletivo. Estes se apresentam muitas vezes sob a forma de estranhos animais, serpentes e seres mágicos, cujo paralelo pode ser encontrado na mitologia ou no simbolismo religioso. Ocorrem em momentos críticos de nossa vida, ou nos chamam a atenção para novos aspectos interiores a serem alcançados.
Outros ainda podem ser premonitórios, aqueles cujos fatos vistos ou vivenciados durante o sonho realizam-se no plano material.
Então,pensar que os sonhos não passam de meras fantasias "irreais" é o mesmo que ignorar a si mesmo tornando uma metade inexistente.
Pois, como afirma Jung, "tanto a psiquê quanto a matéria fazem parte de um todo".

Profissão: Dekassegui

Jaqueline Negreiros


A visão que os dekasseguis tem do Japão se parece muito com a visão de um nortista em relação aos grandes centros urbanos industrializados. Eles deixam sua terra natal, família e amigos na ilusão de que vão enriquecer na cidade grande, conseguir um trabalho honesto com uma boa remuneração e retornar "vitoriosos" para seu lar, mas muitos deles nem sequer conseguem juntar capital necessário para custear a passagem para esse tão sonhado retorno...Sentem-se uns fracassados...Mas onde se encontra o fracasso?
O fracasso consiste em se perder no objetivo esquecendo-se de apreciar o caminho. Em dar demasiada importância ao que não tem importância...ao supérfluo. A incapacidade de "olhar além do que se vê" é o que torna o fracasso real. Chegamos com ideais materialistas, arrogantes, competitivos e nos esquecemos de nos fazer companhia... nos abandonamos...
A verdadeira riqueza se adquire a partir do momento que tiramos o véu que cobre nossos olhos e nos permitimos sentir e ter pensamentos nobres... Viemos de tão longe para levar conosco coisas tão pequenas? Não! Viemos de tão longe para conhecer coisas grandiosas, para adquirir tesouros de valores incalculáveis...Deus nos presenteia à todo momento nos mostrando lindas paisagens que mais parecem paraísos terrestres. Nos envia amigos dos diversos cantos do mundo onde a solidariedade se torna marca registrada pois sabemos que estamos todos no "mesmo barco"...perseguindo nossos sonhos...e permite que nos "encontremos" conosco como se estivéssemos nos "vendo" pela primeira vez...

E isso não vale a pena???

Como diz o poeta "Tudo vale a pena se a alma não é pequena"!

E tudo depende de nossas escolhas..."existem pessoas que vêem o sol como uma simples mancha amarela; e existem pessoas que vêem, numa simples mancha amarela, o sol".