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sábado, 19 de janeiro de 2008

A Novidade


Herbert Viana

A novidade veio dar à praia
Na qualidade rara de sereia
Metade, o busto de uma deusa maia
Metade, um grande rabo de baleia
A novidade era o máximo
Do paradoxo estendido na areia
Alguns a desejar seus beijos de deusa
Outros a desejar seu rabo pra ceia
E a novidade que seria um sonho
O milagre risonho da sereia
Virava um pesadelo tão medonho
Ali naquela praia, ali na areia
A novidade era a guerra
Entre o feliz poeta e o esfomeado
Estraçalhando uma sereia bonita
Despedaçando o sonho pra cada lado
Ó, mundo tão desigual
Tudo é tão desigual
Ó, de um lado este carnaval
Do outro a fome total...


Uma feliz analogia sobre a tecnologia...

O estereótipo do "homem macho"

Jaqueline Negreiros

Há uma ideologia, herdada do patriarcado, do que deva ser um homem. Ele é, nessa visão, o condutor, o provedor, o juiz, o protetor, o defensor, o conquistador.
Para serem bons atores dessa ideologia, os homens têm que passar por um processo de adestramento que leva muitos anos e começa desde cedo. Brincam de coisas agressivas, "marcam territórios", brigam usando mais o físico do que os neurônios, jogam esportes violentos, desprezam as meninas como fracas e jamais se misturam com elas para imaginar coisas sensíveis, simbolizarem ritos domésticos ou simplesmente conversarem. Quando começam a sentir permissão para se aproximar, é com o intuito de "colecioná-las", de mostrar aos iguais seu poder sedutor , de usá-las para algum proveito próprio.
Amigos de verdade, em geral, não têm, porque um amigo é sempre um confidente e homens não trocam confidências. Homens tem companheiros, com quem bebem cervejas e vão ao futebol!
Em geral não gostam de mostrar sentimentos. Isso é identificado com fraqueza. Homens não choram ou, se o fazem, choram escondidos.
O resultado de tudo isso é que se tornam mais fracos. Morrem mais cedo, adoecem mais do coração, enlouquecem mais porque estão envenenados de dores que não podem externalizar e de alegrias que não podem gritar (exceto na hora do jogo).
Essas características soam algo patéticas, em um mundo que não precisa mais delas .Esses senhores fortes foram totalmente desmoralizados pelos desnudamentos da psicanálise ,pelas ciências sociais, pelos estudos antropológicos e, principalmente, pela ascensão das mulheres. Enquanto eles jogavam, bebiam suas cervejas, arrotavam alto, corriam loucamente nas motos e automóveis e morriam nas guerras, confirmando todos os clichês, elas estudavam, se reuniam, ascendiam por dedicação profissional e conquistavam o mundo.
Os homens sentem-se roubados! Já não têm coragem de ser o que eram e não fazem a menor idéia do que são! Isso gera uma enorme carga de frustração e agressividade.
Nunca tiveram muita relevância como pais e rejeitaram tudo o que é doméstico. No mundo fora do lar também acabaram perdendo importância por terem visto como fraqueza as atividades intelectuais, especialmente nas áreas das humanidades. Repentinamente, mergulharam em um mundo altamente complexo, que exige novamente o conhecimento do generalista ao lado da especialidade. Desprezaram as emoções e acabaram dando de cara com um mercado de trabalho que seleciona a partir de testes de Q.E. (Quociente Emocional). Que lhes sobrou? Que restou para eles, frutos de uma ideologia anacrônica, de uma horrorosa educação dessensibilizante, da perda progressiva e percebida de todos os tronos? Sobrou-lhes a raiva, a violência!
É um dos casos típicos em que a falta de auto-estima redunda em falta de estima pelos demais.
É preciso ressignificar o masculino, ressocializar o homem, permitir-lhe os sentimentos, dar-lhe licença para o exercício da fragilidade, ajudá-lo a aprender a rir e chorar, ao lado de reforçar as conquistas positivas do feminino, evitando as contaminações do estereótipo recusado, é o mais competente exercício educativo que se pode fazer para reduzir a violência disseminada e melhorar o mundo em que vivemos.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Apologia ao Ócio-Criativo

Domenico De Masi, sociólogo italiano expôs suas idéias sobre a sociedade e o trabalho, sempre atento aos conceitos de uma visão de futuro.O autor é um insatisfeito com o modelo social centrado da idolatria do trabalho e propõe um novo paradigma baseado na simultaneidade entre trabalho, estudo, jogo e lazer, no qual os indivíduos são educados para privilegiar a satisfação de necessidades radicais, como a introspecção, a amizade, o amor, as atividades lúdicas, a ecologia, a paz, a convivência pacífica, o que, inteligentemente chama de ócio criativo.
Alerta ainda que o ócio pode transformar-se em violência, neurose vício e preguiça. Mas pode também elevar-se a arte, criatividade, liberdade e bem-estar. Lembra-nos que é no tempo livre que devemos passar a maior parte de nossos dias e neles concentrar nossas melhores potencialidades.
Narrando as mudanças de paradigmas ocorridas no decorrer da história da sociedade e do trabalho, conclui que chegamos a ponto de que o único emprego remunerado disponível é do intelectual criativo e aquele que não estiver preparado para isto, terá como futuro o desemprego. Tudo hoje é tecnologia.O futuro pertence aos que sabem usar mais a cabeça e menos as mãos. A pesquisa, a psicologia, o marketing, a arte, a educação, estas são as funções do futuro e não mais a guerra, o petróleo, a fabricação de parafusos e geladeiras.
É a subjetividade que orientará a vida e o trabalho daqui para frente. O homem sempre oscilou entre dois desejos: o de distinguir e o de homogeneizar num processo de dois séculos de homogeneização absolutamente imposto pela indústria. Hoje, a tecnologia nos permite diferenciar, e é o que estamos fazendo, criando ambientes inteligentes armazenados pelo computador; trabalhando em casa, estabelecendo relações virtuais com amigos e parentes; conjugando o pequeno, o grande, o individual e o coletivo.
A plenitude da atividade humana apenas é alcançada quando se acumulam o estudo, o trabalho e o jogo. Aquele que é mestre na arte de viver faz pouca distinção entre o seu trabalho e o seu tempo livre, entre a sua mente e o seu corpo, entre a sua educação e a sua recreação. Distingue uma coisa da outra com dificuldade.A intelectualidade prescinde à habilidade manual, devemos usar mais a cabeça do que a força física e entre as habilidades intelectuais a mais apreciada é a criatividade e o aspecto técnico prescinde do estético. É a estética que conduz à subjetividade. Outros valores emergentes são a emotividade e a feminilidade. Devemos valorizar sem temor a esfera afetiva. A racionalidade permite-nos executar bem as nossas tarefas, mas sem a emotividade não é possível criar nada de novo.
As pessoas devem aprender a curtir mais o tempo livre e usá-lo para si. Ficar no emprego mais tempo que o necessário só serve para inventar coisas prejudiciais e aumentar gastos e custos para as empresas que são habitudinárias como paquidermes e repetem a vida inteira as mesmas coisas sem que percebam a sua inutilidade.
Agora, com a Internet, tudo pode ser modificado com muito mais facilidade. Devemos evitar que o indivíduo, uma vez liberto, depois de décadas contínuas, não saiba lidar com esta nova situação, tendo dificuldades para enfrentar este impacto de liberdade. Uma pessoa que não tem tempo livre há anos precisará de uma reeducação para aprender a utilizá-lo, é lógico.
Hoje a forma mais adequada de se garantir a produtividade na empresa é, justamente, melhorar a qualidade de vida dentro e fora dela. É preciso deslocar o trabalho para onde estão os trabalhadores e sermos nômades em busca do lazer, do estudo e da cultura.
Aqueles que assimilam rapidamente as novas categorias se projetam para o futuro. O restante forma o grande exército de perdedores. No mundo de hoje, a velocidade impera, quem é lento fica à mercê. Quem é rápido, decide. O mundo exclui quem não é rápido. Privilegia-se a produção de idéias, exige-se corpo quieto e mente inquieta, o que eu chamo de "ócio criativo": ter mais tempo para "bolar", para "idear".
O ócio é uma arte e nem todos são artistas.
Contudo, teremos muitas resistências, sendo a maior delas, sem dúvida, o masoquismo coletivo: nem sempre as pessoas querem viver melhor e ser mais felizes.
Devemos, portanto, educar as pessoas também, eu diria, até principalmente, para o ócio e não só para o trabalho, como infelizmente acontece até os nossos dias.
Educá-las não para o ócio dissipador e alienante, que nos faz sentir vazios, inúteis e nos afundar no tédio, na depressão e nos subestimar. Mas no ócio criativo que torna a mente ativa, que nos faz sentir livres, fecundos e em crescimento. Não no ócio que nos depaupera, mas no que nos enriquece, alimentado por estímulos ideativos e interdisciplinaridades.
Chegou o tempo em que a vida aumenta e o trabalho diminui. Temos mais tempo, mais cultura e mais consciência disto. Diante desta revolução é esperada uma angústia existencialista .O tédio aumenta porque estamos acostumados a associar tudo na vida a uma só coisa: o trabalho que passou a ser, há milênios, o nosso compromisso-chave e este compromisso tem que passar a ser minoritário do ponto de vista temporal.
De que serve viver se você não se sente viver? Saber viver hoje implica uma pedagogia baseada na solidariedade, nos princípios estéticos e criativos e o trabalho deve ser ensinado como um prazer criativo e estimulante. Deve-se ensinar também o não-trabalho: a viver prazerosamente e com sabedoria, apenas se deliciando, nada ,mais.
Outra palavra de ordem é criatividade. Os jovens de hoje, em 2 015 não poderão dar-se ao luxo de serem desonestos, pois lá os valores emergentes serão escolarização, emotividade, estética, subjetividade, confiança, estabilidade, feminilização, qualidade de vida, desestruturação do tempo e do espaço e a virtualidade. Será dada menos atenção ao dinheiro, posses e bens materiais e ao poder. Maior atenção ao saber, ao convívio social, ao jogo, ao amor, à introspecção. Os métodos pedagógicos deverão valorizar mais o diálogo, a escuta, a solidariedade, a criatividade.

Viva o ócio-criativo!